Em uma galáxia distante, em Tusk, um planeta mais distante ainda, no país emergente de Bananis, onde os maiores possuidores de um artefato raríssimo, poucas vezes ou nunca visto pela maioria de seus habitantes, um penico, reunidos em uma grande sala em que se podia ouvir várias línguas, dialetos, estridentes toques de celular e uma televisão sintonizada em uma novela, instaurou-se um dabate crucial para o desenvolvimento econômico e social daquele país. Representantes de vários outros países, cada um com sua pose, todas devidamente registradas e patenteadas, estavam ali para discutir em caráter emergencial como poderiam juntar novamente os protagonistas da novela sem causar pânico na população — o que poderia causar sérios prejuízos aos cofres públicos. Talvez um filme reprisado após a exibição do último capítulo ou vários comerciais da multinacional JunkFood’s durante a novela; mas ninguém chegava a uma conclusão. A euforia e a revolta iminente trariam ondas de assalto, saques noturnos, arrastões, roubos dos mais variados tipos, cores e tamanhos de zirtogs*, além de casamentos, broxamentos, engarrafamentos e a mais variada sorte de pestes que poderia passar por aquele planetinha. As influências negativas do povo daquele país poderiam ser passadas, então, para outros países e o caos se tornaria muito maior.

Nenhum dos presentes gostaria de ver seu país sendo atacado por adolescentes vestidos com roupas escuras e cabelo na metade do rosto, revoltados com o reencontro dos pombinhos da televisão — e, aliás, por nenhum outro tipo de grupo social violento e sanguinário. Portanto estavam todos ali em busca de um bem comum, do cumprimento do Selo da Paz Eterna, instaurado nos últimos anos naquele planeta, perguntando-se: trancar ou não trancar Bananis, o país emergente, para todo o sempre?
O fato de terem que juntar o casal mais querido da televisão causaria uma fúria sem precedentes: o povo de Tusk não estava acostumado com finais felizes e com certeza descontaria toda a sua ira em qualquer coisa que encontrasse pela frente. Talvez até os penicos daqueles representantes seriam ameaçados, e isso eles não poderiam permitir. Cada centavo de penico valeria a pena ser gasto para a resolução de uma questão tão importante, ainda que para respondê-la precisassem ser gastos todos os penicos daquele planeta. E o povo não podia esperar. O último capítulo estava próximo.
Quando o último capítulo veio ao ar nada foi surpreendente. Um acidente de carro aleijou a protagonista e o galã fugiu com a mais feia da festa, gritando diversos bordões esquecidos no tempo. O povo não se pronunciou: estava satisfeito com o que tinha visto e na semana seguinte o assunto já era outro. Bananis não foi lacrado, os dez Sóis voltaram a brilhar, não houve manifestações e tudo voltou a ser como era antes.
Há relatos de que a novela seguinte resolveu mudar o tema e fazer abordagens sobre discriminação social, história da arte e esportes olímpicos e que foi tirada do ar em três meses por falta de audiência. Mas ninguém teria tanta petulância.
* Espécie de galináceo comum nas terras de Bananis
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