A moda dos tempos de hoje é o remake de piadas batidas com cenas atuais. Lá vai.
* * *
Diz que o cara tava dando um rolé de pedalinho na Avenida Paulista quando se deparou com uma peça brilhando no meio da água. Mais que rapidamente colocou o braço pra fora, agarrou o artefato e viu que era uma garrafa. Dentro dela uma fumaça estranha parecia ter a cara de um humano. Sem acreditar no que via, abriu a garrafa e um gênio saiu de dentro dela.
– Tu tem um desejo, malandro.
– Só um?
– E rápido, que eu tenho mais o que fazer.
– Tá… Beleza… É… — tirou um mapa do bolso e apontou — Eu quero a paz no Oriente Médio. Aqui, ó. Sabe, seu gênio, é que os mano lá tão se matando por causa de besteira, se explodindo, se destruindo… Se aquela guerra de lá acabasse a gente ia ter mais paz no mundo, tá ligado? É isso aí que eu quero.
– Rapaz, tu tá maluco? Esses países aí tão se engalfinhando há mais de cinco mil anos! Tu acha que eu vou botar paz naquela zona como? Pede outra coisa, vai.
– Outra coisa? Tá, calmaí… É… Já sei, eu quero que São Paulo nunca mais tenha enchente. Isso aí.
– São Paulo? Sem enchente?
– Nunca mais.
– Nunquinha?
– Nunca.
– Me dá essa porra desse mapa aí, vai.
Sim, eu fico feliz nesse dia. Gosto muito. Acho essa coisa de espírito de Natal um tanto quanto contagiante. Enfeito a casa, junto os presentes, uns dois ou três em época de vacas gordas, enfeito o pinheirinho de prástico que eu compro na casa de produtos refugados com as fitinhas de seda que eu junto dos presentes que eu ganho durante o ano, uma ao todo, e encho a casa daquelas lampadinhas que piscam, piscam e queimam (quase sempre na ordem inversa).
Faço a mesa com as sobras de madeira que jogam no terreno baldio da esquina, pego os melhores pratos da casa e lavo com palha de aço pra tirar a crosta de gordura, mando a patroa fazer um panelão de arroz parboilizado, mato um gato gordo da vizinha e mando chamar a família: consigo uma Kombi e recolho a maioria deles de um viaduto aqui pertinho. Como eu sou o mais abonado da família e vivo com a patroa e os oito filhos em uma caixa de papelão na rodoviária, os dois reais da gasolina sou eu que pago.
Quando chega a grande hora, a de atacar a única panela de farofa com linguiça na mesa, eu faço todos se abraçarem e desejarem feliz Natal uns aos outros, numa demonstração coletiva de falsidade que daria inveja a qualquer comício político. Depois vamos aos presentes: todos bêbados de cerveja barata começamos a trocar todas as farpas acumuladas durante o ano. As mulheres falam dos sapatos e dos vestidos umas das outras. Os homens falam das próprias mulheres, depois das sogras e depois daqueles filhos das putas dos nossos filhos que tão destruindo a casa inteira, tira a mão daí, moleque! Na hora de ir embora, alguns vomitando pelo excesso de bebida e outros por excesso de verdade, a gente se abraça de novo, dá dois tapinhas nas costas e faz a piadinha tão esperada do “até ano que vem, hein!”.
O Natal é mesmo uma data pra não se esquecer.
Em uma galáxia distante, em Tusk, um planeta mais distante ainda, no país emergente de Bananis, onde os maiores possuidores de um artefato raríssimo, poucas vezes ou nunca visto pela maioria de seus habitantes, um penico, reunidos em uma grande sala em que se podia ouvir várias línguas, dialetos, estridentes toques de celular e uma televisão sintonizada em uma novela, instaurou-se um dabate crucial para o desenvolvimento econômico e social daquele país. Representantes de vários outros países, cada um com sua pose, todas devidamente registradas e patenteadas, estavam ali para discutir em caráter emergencial como poderiam juntar novamente os protagonistas da novela sem causar pânico na população — o que poderia causar sérios prejuízos aos cofres públicos. Talvez um filme reprisado após a exibição do último capítulo ou vários comerciais da multinacional JunkFood’s durante a novela; mas ninguém chegava a uma conclusão. A euforia e a revolta iminente trariam ondas de assalto, saques noturnos, arrastões, roubos dos mais variados tipos, cores e tamanhos de zirtogs*, além de casamentos, broxamentos, engarrafamentos e a mais variada sorte de pestes que poderia passar por aquele planetinha. As influências negativas do povo daquele país poderiam ser passadas, então, para outros países e o caos se tornaria muito maior.

Nenhum dos presentes gostaria de ver seu país sendo atacado por adolescentes vestidos com roupas escuras e cabelo na metade do rosto, revoltados com o reencontro dos pombinhos da televisão — e, aliás, por nenhum outro tipo de grupo social violento e sanguinário. Portanto estavam todos ali em busca de um bem comum, do cumprimento do Selo da Paz Eterna, instaurado nos últimos anos naquele planeta, perguntando-se: trancar ou não trancar Bananis, o país emergente, para todo o sempre?
O fato de terem que juntar o casal mais querido da televisão causaria uma fúria sem precedentes: o povo de Tusk não estava acostumado com finais felizes e com certeza descontaria toda a sua ira em qualquer coisa que encontrasse pela frente. Talvez até os penicos daqueles representantes seriam ameaçados, e isso eles não poderiam permitir. Cada centavo de penico valeria a pena ser gasto para a resolução de uma questão tão importante, ainda que para respondê-la precisassem ser gastos todos os penicos daquele planeta. E o povo não podia esperar. O último capítulo estava próximo.
Quando o último capítulo veio ao ar nada foi surpreendente. Um acidente de carro aleijou a protagonista e o galã fugiu com a mais feia da festa, gritando diversos bordões esquecidos no tempo. O povo não se pronunciou: estava satisfeito com o que tinha visto e na semana seguinte o assunto já era outro. Bananis não foi lacrado, os dez Sóis voltaram a brilhar, não houve manifestações e tudo voltou a ser como era antes.
Há relatos de que a novela seguinte resolveu mudar o tema e fazer abordagens sobre discriminação social, história da arte e esportes olímpicos e que foi tirada do ar em três meses por falta de audiência. Mas ninguém teria tanta petulância.
* Espécie de galináceo comum nas terras de Bananis
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