
E os loops infinitos.

Eu confesso. Confesso tudo.
Que assisti à Xuxa um trilhão de vezes, e só hoje eu sei o quanto isso aporrinhou os meus pais. Que ouvi o LP do Balão Mágico no volume máximo, 56 vezes por dia, e só hoje eu sei o quanto os meus amigos também ouviram. Que era eu e meu pai que, com uma antena acoplada do videocassete, transmitíamos A Dama e O Vagabundo para o quarto e para mais meia dúzia de vizinhos. Que também assisti ao Senna ganhando mais um título. Que me emocionei quando ele se foi, e só hoje eu sei o quanto aquele sentimento foi real.
Que voltei pra casa todo estourado depois de ter um acesso de raiva e tentar destruir a bicicleta apertando com toda força as duas manetes de freio descendo a ladeira. Que pulei para a casa do lado pra pegar a bola e empenei o portão todo. Que xinguei a senhora mais chata da rua escondido em cima da árvore. E que vendi chiclete Ploc na porta de casa.
Que me entupi de Kinder Ovo e fiquei de caganeira até o dia seguinte. Que ignorei o quebra-cabeças que vinha dentro porque eu queria o carrinho de montar. Que perdi todos os meus Tazos para a minha irmã menor numa luta justa e apelei à minha mãe para reavê-los. E essa não é a maior das minhas vergonhas juvenis.
Confesso que empinei pipa com nylon e falhei miseravelmente. Que joguei Top Gear, F-Zero e Mario RPG na locadora e com os amigos. Que acreditei na brincadeira do copo e mandei minha irmã ficar longe. Que passei um ano sem falar com o meu cachorro preferido. E que eu mesmo o enterrei quando ele se foi.
Que vibrei a cada guincho do meu primeiro modem, a cada sábado que passava das 14 às 6 horas de domingo descobrindo sabe-se lá o quê na internet. Que ri muito alto com o Silvio Santos no Motel e o Trote no Pastor da Universal. Que li todo o Eu, Hein! e disse que gostaria de ser criativo daquele jeito. Que conectei dois modens via Telnet só pra fazer o console de chat. Que usei o ICQ até a sua quinta versão. Que roubei no Banco Imobiliário. E no War também.
Que apertei a campainha da casa de quem hoje é pediatra da minha filha e saí correndo rindo. Que antes de fazer isso perguntei a todo mundo: “quem aí tá afim de correr?”. Que peguei o carro escondido para comprar biscoito no mercado e fiz o favor de amassar o parachoque. Que caí com a moto, rasguei o tênis e ganhei um puxão de orelha e um elogio pelo alinhamento do guidão — que tinha ficado perfeito depois da queda. E que na escola não houve playboy de Honda Biz que roubasse os olhares de mim quando eu passei pela portaria montado numa 125 do meu tamanho.
Confesso, bato no peito e assino embaixo: minha infância foi muito boa.
* * *
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E, sim, minha infância durou até os meus 18 anos.
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